Rostortzeff, M. A Itália de 800 a.C. à 500 a.C. In: história de Roma. Rio de Janeiro, Zahar, 1983.
1. Caracterize o que o autor chama de “Império Etrúrio”.
2. O autor afirma que a “atividade política dos etruscos seguiu duas direções” explique-as.
3. Quem são os samnitas e quais suas relações com gregos e etruscos nos séc. V e IV a.C.?
4. A que população o autor chama de latina?: Caracterize-a.
5. Quais são as instituições políticas, sociais e econômicas de Roma no período da Realeza?
1. O Império Etrúrio era uma liga de diversas cidades grandes, alguns portos de mar. Sua uni¬dade diminuiu gradualmente, mas era ainda considerável, pro¬vavelmente, quando o império foi criado. Os etruscos forma¬vam a classe mais elevada na população e viviam em cidades fortificadas e bem planejadas. Obtinham sua riqueza de vá¬rias fontes: cultivavam o solo fértil do país e criavam gado, tra¬balhavam as minas de cobre da Etrúria e as minas de ferro da ilha de Elba, mantinham uma indústria ativa, especialmente de metal e tecidos, além de um amplo comércio com o mundo grego e o Oriente através das colónias gregas do Sul da Itália e de Cartago fenícia.
2. A atividade política dos etruscos seguiu duas direções. Pelo lado do mar, eram amigos fiéis dos fenícios e cartagine¬ses, que aceitavam de bom grado os serviços desses piratas aventureiros e ousados, desde que suas atividades se limitassem aos gregos rivais de Cartago, evitando os aliados desta. Para a Fenícia, e mais tarde para Cartago, a Etrúria era um mercado desejável, para onde exportavam metais e matéria-prima, importando dali o estanho da Espanha e Grã-Bretanha, a prata e cobre da Espanha e ouro dos artigos manufaturados no Oriente. Os etruscos eram sem dúvida mais piratas do que comerciantes, e Cartago não temia sua concorrência: não co¬nhecemos uma única colónia ou agência de comércio organi¬zada por eles. A hostilidade entre a Grécia e a Etrúria, po¬rém, era aguda.
3. Os samnitas pertencentes à população italiana da península viviam há muito lado a lado com as colónias gregas do sul e lutavam para conquistar parte do litoral onde elas se tinham instalado — ambicionavam principalmente a riqueza de Campânia. No leste, as poderosas tribos civiliza¬das que habitavam a Apúlia dominavam a costa e mantiveram os samnitas fora da região. Pouco sabemos sobre a organiza¬ção dos samnitas, mas podemos supor que se dividiam em tri¬bos montanhesas isoladas e que na sua maioria eram pastores ignorantes da vida urbana. Algumas dessas tribos estavam unidas em ligas que esporadicamente adquiriam bastante for¬ça. Sua expansão foi promovida por uma instituição denomi¬nada "A Fonte Sagrada", segundo a qual toda a geração mais nova de determinado clã era enviada à luta, pelos mais ve¬lhos, sob a bandeira de um totem sagrado — lobo, bezerro, boi ou corvo — a fim de conquistar novas pastagens e campos virgens.
No curso dos séculos V e IV a. C. os samnitas aprenderam muito com seus vizinhos gregos: aperfeiçoaram as armas, adotaram os métodos gregos de guerra, colocaram a organização de clãs e ligas numa base mais firme e começaram a levantar ci¬dades próprias e a fortificá-las. Puderam assim tomar uma após outra as quase indefesas colónias gregas. O comércio com os gregos enriqueceu-os e desenvolveu-lhes o gosto: nos túmulos do século IV a. C. encontramos excelentes pinturas e muitos objetos de ouro, prata e bronze, com vasos feitos se¬gundo modelos gregos. Quanto mais perto estavam de Cam¬pânia, tanto mais sentiam a influência da civilização grega. Puderam, finalmente, expulsar dali os etruscos, tomar a maio¬ria das cidades da região e fazer de Cápua sua capital, em 438 a. C. Ali cresceu e floresceu, portanto, um novo e vigo¬roso ramo do helenismo, que pode ser chamado de greco-sam-nita ou campaniano, e essa cultura é bem conhecida por nós em virtude dos antigos monumentos e túmulos encontrados em muitas de suas cidades.
Assim, portanto, os samnitas foram o povo que impôs um limite à expansão dos etruscos no sul, mas que não estava bastante consolidado para substituir os gregos nesse avanço. Suas forças estavam divididas, e cada clã se empenhava sepa¬radamente numa luta obstinada contra as cidades gregas da costa. As maiores destas, Tarento e Nápoles, muito fortes para serem destruídas, não deixaram nunca de continuar co¬mo centros fortes e florescentes da vida e política gregas, até sua absorção pelo poderio romano. Os samnitas tiveram ou¬tro obstáculo formidável nos tiranos gregos da Sicília, especial¬mente os governadores de Siracusa, sempre desejosos de es¬tender sua influência às colónias gregas da Itália e prontos a apoiá-las na luta contra os samnitas.
4. Os latinos, vivia na parte litoranea do lacioem Tarracina, Âncio e a foz do Tibre, cujo domínio não foi contestado pelos gregos ou pelos etruscos seus únicos rivais eram os volscos, tribo das montanhas que ocupava os contrafortes dos Apeni¬nos entre o Lácio e Campânia e a luta entre os dois era dura e continuada. O domínio do mar determinou o futuro destino do Lácio, e o fato de que os latinos não foram nunca afastados do litoral explica-se em consequência de duas causas.
Em primeiro lugar, o Lácio não era particularmente atraen¬te aos etruscos e gregos, do ponto de vista comercial. A pla¬nície que limita o Tibre inferior ao sul era um vale pantanoso cortado de sete ravinas, que tornavam difícil a comunicação. Ao sul dessa planície há uma estreita faixa montanhosa, pro¬pícia ao plantio de cereais e vinhas, e à criação de animais, mas de extensão muito limitada. Acima dessa faixa estavam as montanhas inacessíveis, habitadas pelos volscos, équos e sa¬binos, que ali apascentavam seus rebanhos, e que pouco se distinguiam de assaltantes. Custou aos habitantes dos montes Albano e Sabinos esforços árduos e demorados para conquis¬tar a planície lácia e nela plantar: ainda hoje, podemos ver a rede de canais de drenagem subterrâneos abertos para tornar a agricultura possível ali. É muito provável que tais canais fossem influência dos etruscos, que haviam aprendido tudo sobre drenagem e irrigação em sua antiga pátria, na Ásia Me¬nor. A segunda causa da independência do Lácio e de seu domínio da costa está na rivalidade entre gregos e etruscos, que o transformou numa espécie de Estado-tampão entre duas esferas de influências opostas. Essa independência e ligação com o mar, conservadas du¬rante séculos, foram de imensa importância para o desenvol¬vimento do Lácio e da raça latina. A corrente de civilização, vinda da Grécia, Etrúria e Cartago, ajudou a elevar o nível da vida económica e social. Ao mesmo tempo, o perigo cons¬tante de ataque de três, se não quatro, direções ensinou o povo a considerar-se como uma unidade só, ligada pelos laços do sangue e da religião. E, finalmente, a luta árdua contra o solo traiçoeiro da planície temperou o espírito dos primeiros habitantes, prendendo-os fortemente à terra que haviam do¬minado à custa de esforços ingentes.
5. Nossas informações sobre as ativida-des políticas da Roma antiga são tão reduzidas quanto nosso conhecimento de sua constituiçao . Mas não há dúvida sobre um ponto — de que nos tempos antigos foi governada pelos reis. Há sobre isso duas indicações. Primeiro, em Roma durante o período histó¬rico, como em Atenas, um dos sacerdotes tinha o título de rei (rex sacrorum). Segundo, quando faltavam à cidade magis¬trados eleitos, um funcionário chamado interrex promovia a eleição dos novos magistrados e realizava as funções governa¬mentais. Outro fato está igualmente bem estabelecido — o de que a população da cidade se dividia em grupos religiosos e militares chamados curiae, que incluíam todos os habitantes com exceção dos escravos. É possível que essa classificação primitiva fosse artificial, como a divisão em phratriae e phylae na Grécia, e tivesse principalmente objetivos militares. Ê tam¬bém possível que o número de curiae aumentasse em propor¬ção ao crescimento da cidade latina do Palatino. A divisão em curiae foi mantida em épocas posteriores, quando havia trinta delas, cada qual com seu centro de reuniões, membros representativos e ritos religiosos próprios. As curiae tinham também certas funções políticas: era atribuição sua, por meio de uma lei especial (lex curiata de império), investir o magis¬trado de seu poder executivo. Pouco sabemos sobre as instituições sociais e económicas. Na Roma menos remota, a vida da comunidade baseava-se na família, onde o poder paterno era absoluto, e que inclui não só a mulher e os filhos mas também os dependentes — os clientes ou "ouvintes" e os escravos. Devemos, porém, lem¬brar que, juntamente com esse sistema patriarcal que predo¬minava em Roma em épocas históricas, sobreviveram traços consideráveis de outro sistema, chamado "matriarcal", no qual a mãe era considerada mais importante do que o pai. A ri¬queza da família consistia principalmente no gado (pecus) e por essa razão o dinheiro era chamado pecunia. Na primi¬tiva religião romana, porém, os deuses que protegiam a agri¬cultura e os maus espíritos que a prejudicavam são tão impor¬tantes como os deuses correspondentes que protegiam o gado, o que mostra ter a agricultura, cedo, constituído o esteio da vida económica em Roma.
Rostovtzeff, M. Roma no século V em princípios do século IV a.c Op. Cit.
1. Quais foram as principais transformações políticas e sócias causadas pela substituição da monarquia?
2. Quais foram os desdobramentos das Guerras dos séculos V e IV em Roma?
3. Comente a afirmativa: “É certo que a nova organização do corpo de cidadãos deu mais força à comunidade”
4. Rostovtzeff aponta diferença entre a religião doméstica e a religião cívica. Aponte-as, explique as mudanças ocorridas na última.
5. Comente ou critique os anacronismos presentes no texto.
1. Não produziu qualquer modificação radical na Constituição da cidade. Roma já era um poder, principalmente militar, com uma aristocracia que governava uma população predominantemente agrícola. O domínio etrusco fôra-lhe útil: ela se tornara maior, mais forte e mais civilizada, sua vida mais variada. A cidade de Roma, o centro do Estado, adquirira grande importância co¬mercial. Houve, portanto, maiores modificações nas relações sociais e económicas do que na Constituição. A única modifi¬cação constitucional de destaque foi esta: a aristocracia vito¬riosa, ao invés de escolher um novo rei, colocou em seu lugar dois líderes eleitos — pretores ou cônsules — por um mandato de um ano e com plena autoridade sobre os assuntos civis, mi¬litares e religiosos. Além disso, em caso de necessidade o poder real poderia ser temporariamente restabelecido, na pessoa de um ditador, cujo mandato porém era limitado a seis meses. Dessa forma, o Senado e a assembleia popular adquiriram maior importância. A segunda, que se reunia simplesmente para registrar os éditos reais, passou a votar "sim" ou "não" nas questões que lhe eram submetidas pelos cônsules.
2. As guerras uma influência notável, especialmente no desenvolvimento interno de Roma, na política e economia. À medida que Roma se tor¬nava mais rica e poderosa no curso do século V a. C, sua orga¬nização hereditária e aristocrática tornou-se cada vez mais instável. Os plebeus, livres do peso do serviço militar, au¬mentaram de importância. Nas constantes guerras daquele século, os nobres foram forçados, mais de uma vez, a pedir au¬xílio aos plebeus e completar as fileiras do exército com ele¬mentos recrutados, entre eles. É possível que o sistema militar que traz o nome de Sérvio Túlio e foi introduzido definitiva¬mente após as guerras gaulesas tivesse começado a existir nes¬sa época. Com o crescimento do território romano, aumentou o número de proprietários de terra, livres mas não patrícios, pois os plebeus que participa¬vam de campanhas de êxito recebiam como recompensa as ter¬ras conquistadas. Muitos dependentes das famílias dominan¬tes eram, talvez, recompensados assim pelo serviço militar pres¬tado e tornavam-se com isso economicamente independentes. Aos poucos, cresceu entre os plebeus a noção dos interesses comuns e o desejo de organização.
3. É certo que a nova organização do corpo de cidadãos deu mais força à comunidade. Havia um interesse comum no co¬ração de todo cidadão, que se sentia responsável pelo Estado e sua prosperidade. Ao mesmo tempo, a organização pura¬mente militar do Estado, juntamente com o amplo e ilimitado poder dos cônsules durante qualquer campanha e fora dos limites da cidade, ensinou ao povo uma disciplina militar rigo¬rosa e a obediência às ordens dos chefes. As funções dos tri¬bunos limitavam-se à cidade: seu veto era impotente contra os magistrados, durante operações militares, nem podia o di¬reito de apelo ser utilizado em tais circunstâncias. Os resul¬tados da nova organização logo se tornaram evidentes, quando Roma e o Lácio, após luta vitoriosa contra os volscos e équos, viram-se obrigados a enfrentar outros inimigos mais formi¬dáveis, na segunda metade do século IV a. C.
4. • A religião da família era menos formal. Era dedicada ao genius do senhor e chefe da família, no qual se personificavam seu poder criador e a vida da família. Os manes, ou es¬píritos dos ancestrais, também sobreviviam na casa e na famí¬lia, e era necessário propiciá-los com ritos. O génio (chamado Iuno) da senhora da casa devia ser cultuado, tal como o do senhor. Há ainda os penates, espíritos que guardavam a ri¬queza da família, seus cofres e celeiros; os lares, que vigiavam os campos e estradas; e, finalmente, a lareira doméstica como objeto de culto.
•A religião da Civica formal. Era dedicada aos novos deuses esta¬vam ligados ao comércio e à indústria, e para eles foram er¬guidos templos, perto do Tibre ou no Aventino, o monte ple¬beu. A mais antiga dessas divindades é Hércules ou Héracles, que protege o comércio e a vida dos negócios — seu altar fi¬cava no mercado de gado (fórum boarium); em seguida vinha Minerva, deusa latina que guarda certos traços da antiga Ate-ná da Grécia, a protetora dos artesãos. Ao mesmo tempo, de-senvolve-se uma religião, peculiar às famílias patrícias — as famílias etrusco-latinas que havia dominado no remado de mo¬narcas etruscos. E assim Roma, como qualquer cidade-Esta¬do do mundo antigo, passa a ter um centro religioso e Acró¬pole própria no Capitólio, onde se localizou o templo consa¬grado à trindade Júpiter Ótimo Máximo, Juno e Minerva. O templo foi construído em estilo etrusco, e o aspecto externo do ritual era etrusco — mas não os deuses em si.
5. Quando se fala de industria na idade antiga de Roma se comete anacronismo pois a industria surgiu segunda década do séc. XVIII, quando houve uma renovação de técnicas e utensílios agrícolas, além da modificação dos regimes de exploração e mercantilização de produção, transformações essas que foram denominadas de Revolução Agrícola que se alargou devido à Revolução Industrial num conjunto de alterações económicas e socioculturais resultantes do aparecimento da maquinofactura.
Corassin, M, L. Sociedade e Política na Roma Antiga. São Paulo:Atual,2005
1.O que provoca e quais foram os desdobramentos econômicos e sócias das guerras púnicas?
2. Qual é a relação entre a vitória nas guerras púnicas e o fortalecimento do senado?
3. O que a autora chama de “questão agrária” e quais são suas implicações sócias?
4. Quais eram os objetivos das reformas propostas pelos irmãos Graco e quais foram o motivo de seu fracasso?
5. Caracterize a situação política no período de transição entre república e Império.
1. O controle da península Itálica colocou Roma em confronto com sua antiga aliada, Cartago, cidade fundada pelos fenícios em 814 a.C. no norte da África. Tratados estabelecidos entre elas reco¬nheciam a supremacia cartaginesa no Mediterrâneo ocidental. Cartago, que controlava essa área e boa parte da Sicília, não podia tolerar agora o surgimento de uma nova potência em sua zona de domínio comercial. Os enfrentamentos tiveram início na Sicília, ilha situada entre Roma e Cartago e rica o bastante para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana, que desejava estender seus domínios além do estreito de Messina. Foi o início da Primeira Guerra Púnica (púnico significa "cartaginês").
2. A Segunda Guerra Púnica consolidou a aristocracia como grupo dirigente. O sucesso do imperialismo aumentou o prestígio do Se¬nado, responsável por dirigir as guerras vitoriosas. Seus membros cada vez mais procuravam se distinguir dos demais cidadãos, e pas¬saram inclusive a ser denominados membros de uma ordem (ordo senatorius). Em 180 a.C, uma lei regulamentou a carreira dos ma¬gistrados, o chamado cursus honorum: depois de eleito para os primeiros cargos, só era permitido a um magistrado tornar-se pretor aos 38 anos e cônsul aos 43. O número de cargos superiores era muito reduzido, pois a cada ano existiam apenas dois cônsules. Assim, aqueles que os atingiam formavam uma elite dentro da pró¬pria aristocracia senatorial. Essa nobreza, composta pelos titulares das magistraturas mais altas e por seus descendentes, tornou-se ain¬da mais fechada. O acesso ao consulado tornou-se privilégio de cerca de 25 famílias da alta aristocracia.
3. Abaixo desses grupos, encontramos os médios e pequenos pro¬prietários de terras, que constituíam a plebe propriamente dita. Como cidadãos, tinham a obrigação de servir no exército, justamen¬te porque eram proprietários. Eram a base da força de Roma — indispensáveis para a agricultura e necessários para fornecer os sol¬dados sem os quais Roma não teria vencido os inimigos. A pequena propriedade rural produzia sobretudo cereais para a subsistência, sendo cultivada diretamente pelo proprietário e sua família.
Uma das mais sérias conseqüências da Segunda Guerra Púnica e da expansão romana foi o empobrecimento e a proletarização desses agricultores-soldados. Eles foram os maiores prejudicados na guerra contra Aníbal, que assolou a Itália de 218 a 201 a.C. Calcula-se que, durante essa longa guerra, a metade dos homens entre 18 e 46 anos, capazes de servir, foi convocada. As baixas foram tremendas. O número de cidadãos mobilizáveis caiu de cer¬ca de 270 mil em 233 a.C. para 214 mil em 204 a.C. Nas sangrentas guerras que se seguiram, já se fazia sentir a dificuldade em chamar homens para o exército. O território itálico, principalmente o sul, sofreu terrível devastação com a movimentação dos exércitos e as represálias de Roma contra as cidades meridionais que aderiram a Aníbal. Após o fim da guerra, muitos soldados, ao retornarem a suas propriedades, encontraram-nas arruinadas — e nem todos tinham condição de reconstruí-las. Assim, os pequenos e médios proprietários de terras, cidadãos que constituíam o cerne das le¬giões romanas, encontraram-se profundamente atingidos. Famílias de camponeses muitas vezes não dispunham mais de braços para a lavoura, pois seus homens haviam perecido na guerra ou se encontravam servindo em outra. Viúvas e órfãos, arruinados pela perda do chefe de família, eram de alguma forma levados a se desfazerem de suas propriedades.
4. A intenção da lei agrária de Graco era preservar a estrutura da cidade-Estado naquilo que em Roma era fundamental: a camada de pequenos e médios proprietários, na qual se recrutava o exército cívico. Era evidente a preocupação em manter o poder militar de Roma. Com isso, seria detido o decréscimo do número dos cidadãos assidui, o qual vinha ocorrendo ano a ano. A proposta recebeu apoio do povo, que afluiu em massa do campo para Roma, uma vez que a plebe rural era a maior interessada. A oposição, por sua vez, era composta pelo numeroso grupo dos que ocupavam o ager publicus ilegalmente. Apiano refere-se ao descontentamento dos ri¬cos "que por toda parte se reuniam" temendo ser expropriados.
Pressionado, Tibério reagiu com ações que deram a seus inimi¬gos a oportunidade de atacá-lo como subversivo. Anunciou que se apresentaria como candidato à reeleição para o tribunado e encarre¬gou a assembléia de decidir sobre a aceitação do reino de Pérgamo, cujo último rei, Átalo III, deixara em herança para Roma. Senadores moderados que haviam apoiado Tibério começaram a se afastar, por considerá-lo uma ameaça às instituições. Seus opositores o acusaram de aspirar à tirania. Tibério foi morto num tumulto no dia da assem¬bléia eleitoral, e seus partidários foram perseguidos.
As contradições latentes,emergiram, dando início à profunda crise que durou quase um século e da qual a constituição romana sairia profundamente modificada. A lei agrária, no entanto, não foi revogada após o assassinato de Tibério. A oligarquia conseguiu sufocar o movimento reformista, fortalecendo seu poder. Nos anos seguintes, as leis agrá¬rias foram sendo progressivamente neutralizadas por outras. No en¬tanto, os problemas levantados pelos irmãos Graco marcam uma profunda ruptura na vida política de Roma. O uso da violência como instrumento de ação pelos conservadores do Senado tornou-se habitual e seria adotado por todas as facções no período final da República, caracterizado pelo recurso à ilegalidade. Os problemas sociais e políticos não tinham sido solucionados.
5. Na longa crise de um século, que levou ao fim da Repúbli¬ca, os vários conflitos nunca se transformaram num movimento unificado com o objetivo de alterar a organização social existente. A partir da guerra civil entre Mário e Sila, a luta envolveu grupos heterogêneos, que mudavam de posição conforme os interesses imediatos das facções ou os interesses pessoais. Nessas guerras civis, exércitos romanos se enfrentaram como inimigos, e adversá¬rios políticos foram eliminados em massa durante as batalhas ou nas proscrições. Outro ponto a ressaltar é que tanto os líderes dos optimates quanto os dos populares sempre se originaram da aristocracia sena¬torial. Mais coerentes, os soldados veteranos apoiaram seus antigos generais, que os conduziram durante longas campanhas e que po¬diam proporcionar-lhes terras. Foram, junto com os soldados da ativa, o principal sustentáculo de líderes militares como Mário, Pompeu, César e Otaviano. Tinham clareza de suas reivindicações e foram muito beneficiados pelo novo regime.Para muitos historiadores, não se pode falar de revolução nessa passagem da República para o Principado, pois os movimentos so¬ciais e políticos da República tardia não produziram profunda al¬teração da organização social. A economia romana continuou baseada na agricultura, e o sistema escravista existente se consoli¬dou. Tampouco houve um sentido democrático nas transformações sociais: senadores e cavaleiros permaneceram como os grupos mais elevados e privilegiados.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário